Informação sobre a cirurgia ao cancro

Cirurgia

Esta informação é sobre a cirurgia ao cancro.

Uma cirurgia ao cancro é quando uma pessoa é submetida a uma operação para remover uma parte do corpo onde o cancro se está a desenvolver. Também é utilizada para ajudar a diagnosticar o cancro.

A cirurgia ao cancro pode não ser o único tratamento de que necessita. Por vezes, também pode necessitar de quimioterapia ou radioterapia. Os médicos no hospital irão decidir quais os tratamentos necessários. Temos também folhetos informativos acerca desses tratamentos no seu idioma.

Esperamos que esta informação responda às suas questões. Se tiver quaisquer outras dúvidas, pode perguntar ao seu médico ou aos enfermeiros do seu hospital.

O que é o cancro?

Os órgãos e tecidos do corpo são constituídos por minúsculos elementos base chamados células. O cancro é uma doença dessas células.

As células de cada parte do organismo podem ter aspectos e funcionamentos diferentes, mas a maioria tem o mesmo processo de reparação e divisão. Normalmente, as células dividem-se de forma controlada. Mas se por algum motivo o processo fica descontrolado, as células continuam a dividir-se. Neste caso, podem transformar-se numa massa a que se chama tumor.

Num tumor benigno, as células não se espalham para outras partes do corpo, por isso, não se chama cancro. No entanto, o tumor pode continuar a crescer no local onde se encontra, o que pode originar problemas devido à pressão que causa noutras partes do corpo.

Num tumor maligno, as células conseguem disseminar-se para outras partes do corpo. O cancro vai começar a desenvolver-se numa parte do corpo. É o denominado cancro primário. Se o cancro não for tratado, pode disseminar-se. Caso se dissemine e desenvolva noutra parte do corpo, chama-se cancro secundário ou metastizado.

Porque é que necessita de uma cirurgia?

Pode ser submetido/a uma cirurgia ao cancro por várias razões:

Diagnóstico

O cirurgião pode remover uma pequena parte do corpo onde o cancro se está a desenvolver, para realizar uma biópsia. A biópsia irá ajudar a descobrir qual é o tipo de cancro.

Tratamento

A cirurgia é usada para tentar remover o tumor e a área à sua volta, que pode conter células cancerígenas. Algumas vezes, a cirurgia é usada para remover células cancerígenas que se disseminaram para outras partes do corpo, como os pulmões ou o fígado (cancro secundário).

Antes da cirurgia, poderá ter de fazer quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor e, assim, facilitar a cirurgia.

Estadiamento

O estadiamento é quando os médicos tentam identificar qual o tamanho de um cancro. Também podem descobrir se está apenas no local onde começou a desenvolver-se ou se houve disseminação para outras partes do corpo. Normalmente, terá de fazer um raio-x ou outros exames auxiliares de diagnóstico para descobrir qual é o estádio do cancro.

Se o seu cirurgião não conseguir ver facilmente o tumor no exame, poderá ser necessário submetê-lo/a a uma pequena intervenção cirúrgica, por exemplo, uma laparoscopia.

Durante essa intervenção, o cirurgião vai fazer um pequeno corte na sua barriga. Vai usar um instrumento chamado laparoscópio para observar a área, ver o tamanho do tumor e analisar se houve disseminação. Algumas pessoas podem ser submetidas a este tipo de intervenção noutras partes do corpo.

Os cirurgiões usam as informações acerca da fase de desenvolvimento do cancro para planearem o tratamento. Por vezes, podem obter essas informações ao mesmo tempo que removem um tumor.

Reconstrução

A cirurgia pode ser usada para remover uma parte do corpo. A reconstrução significa que lhe é reconstruída uma parte do corpo, o que pode ajudar a fazer com que alguma parte do corpo funcione melhor. Um exemplo disso é construir uma nova bexiga no caso de esta ter sido removida. A cirurgia também pode fazer com que a pessoa fique com melhor aspecto. Por exemplo, pode ser-lhe feita a reconstrução da mama depois de uma mastectomia (cirurgia para remoção da mama).

Controlar os sintomas

Algumas vezes, o cancro não pode ser completamente removido ou curado. Nesse caso, a cirurgia ainda pode ajudar a controlar os sintomas ou fazer com que a pessoa se sinta melhor. Por exemplo, um tumor pode ser removido ou desviado para reduzir um bloqueio, o desconforto ou outros problemas.

A cirurgia nem sempre é indicada caso o cancro já esteja espalhado pelo organismo, porque a cirurgia por si só nem sempre cura uma pessoa com cancro secundário. Outros tratamentos que podem ser usados são a quimioterapia e a radioterapia, os tratamentos direcionados ou a terapia hormonal.

O seu cirurgião

O médico que o/a vai operar chama-se cirurgião oncológico. Se necessitar de uma cirurgia, será encaminhado/a para uma consulta de cirurgia. É importante ser observado/a por um cirurgião especializado no seu tipo de cancro. Por exemplo, uma pessoa com cancro da mama será observada por um cirurgião especializado em cirurgia da mama e uma pessoa com cancro na boca será observada por um cirurgião especializado em cirurgia da cabeça e pescoço. Estes tipos de cirurgiões encontram-se geralmente num hospital local. Pode sempre perguntar ao cirurgião qual é a experiência que tem.

Se uma pessoa tem um tipo de cancro menos comum, pode necessitar de ser observada por um cirurgião num hospital especializado em oncologia. Este hospital pode ficar mais longe da área onde vive.

O cirurgião pode curar-lhe o cancro?

O cirurgião vai remover o tumor e uma parte da área circundante. Geralmente, se um cancro está localizado numa única área, pode ser completamente removido. O seu cirurgião nem sempre sabe se uma intervenção cirúrgica vai curar um cancro. Embora os exames auxiliares de diagnóstico possam parecer claros, algumas células podem ter saído do tumor principal antes da cirurgia, espalhando-se para outra parte do corpo. Os grupos muito pequenos de células nem sempre aparecem nos exames auxiliares de diagnóstico.

Algumas vezes, o cirurgião pode perceber que não é possível remover completamente o cancro.

O que acontece durante a cirurgia?

O cirurgião quer ter a certeza de que removeu o tumor na totalidade, bem como a área circundante que tinha todas as células cancerígenas, a fim de obter uma margem de segurança. O cirurgião vai examinar ao microscópio a área removida durante a cirurgia para se assegurar de que isso foi conseguido. A margem de segurança é importante porque significa que há menos probabilidades de terem restado quaisquer células cancerígenas. Isso ajuda a reduzir o risco de o cancro voltar a surgir.

Gânglios linfáticos

O cirurgião também pode remover os gânglios linfáticos que se encontram perto de um tumor, porque as células cancerígenas podem ter-se espalhado para os gânglios linfáticos. Um patologista é um médico especialista em diagnosticar doenças por meio de um exame dos tecidos ao microscópio. Irá analisar os gânglios linfáticos a fim de identificar células cancerígenas. Se os gânglios contêm células cancerígenas, isso pode significar que o cancro poderá voltar no futuro. Caso isso aconteça, será encaminhado/a para um médico especialista chamado oncologista. É o oncologista que irá decidir se necessita de outros tipos de tratamento.

Cirurgia guiada

Pode ser submetido/a a uma cirurgia guiada ou laparoscopia. Este método remove, parcial ou totalmente, o tumor de uma parte do corpo. Neste tipo de cirurgia, são feitas pequenas incisões em vez de um grande corte. O cirurgião usa um instrumento chamado laparoscópio para remover o tumor através de uma pequena incisão na pele.

A cirurgia guiada deixa uma ferida muito mais pequena, por isso as pessoas recuperam mais rapidamente. Por vezes, uma pessoa que não se encontra em boas condições para ser submetida a uma grande operação pode estar apta a ser submetida a uma cirurgia guiada.

A cirurgia guiada é tão boa como os outros tipos de cirurgia. Tem de ser efetuada por cirurgiões com formação especializada e com experiência na utilização de um laparoscópio. Para este tipo de operação, poderá ter de se deslocar a outro hospital mais distante.

Antes da operação

O cirurgião e o anestesista vão olhar por si durante e depois da cirurgia. O cirurgião vai operá-lo/a e o anestesista vai anestesiá-lo/a. Eles têm de ter a certeza de que se encontra em condições para ser submetido à operação. Poderá ter de ir a uma consulta ao hospital antes da operação para fazer alguns exames. É a denominada consulta de avaliação pré-clínica.

Na avaliação pré-clínica um enfermeiro vai fazer-lhe perguntas sobre o seu historial médico e vai querer saber se tem algumas alergias. Também vai medir a sua tensão arterial, a pulsação, a altura e o peso. É importante informá-lo sobre os medicamentos que está a tomar, incluindo medicamentos à base de plantas ou suplementos.

Podem fazer-lhe outros exames, como:

  • análises ao sangue;

  • uma radiografia torácica;

  • um eletrocardiograma (ECG) para verificar o ritmo e a frequência do seu coração. Este exame não dói e geralmente demora 5 a 10 minutos.

Algumas pessoas podem ter de fazer mais exames do que outras. Isso pode dever-se ao tipo de operação a que vão ser submetidas ou a outros problemas de saúde.

Mesmo que não possa receber uma anestesia geral, ainda pode ser submetido/a à intervenção cirúrgica. Podem administrar-lhe um tipo diferente de anestésico que impeça qualquer sensação ou dor na área a operar, mas irá manter-se acordado/a.

É muito importante que compreenda tudo acerca da sua operação. Deverá poder falar com o seu cirurgião antes da sua operação. Pode fazê-lo durante a avaliação pré-clínica.

Quando falar com o cirurgião, é boa ideia levar consigo alguém que fale tanto inglês como português. Se for necessário, podem ser disponibilizados intérpretes. Para isso, antes da consulta tem de informar o hospital de que gostaria de ter um intérprete.

Vai ter de assinar um formulário a dizer que concorda com a operação. A isso chama-se dar o consentimento. Os formulários de consentimento devem estar disponíveis no seu idioma. Não pode ser submetido/a a uma intervenção cirúrgica sem ter assinado um formulário de consentimento.

No dia da sua operação

Vão pedir-lhe que tire quaisquer jóias, bijutarias ou outros objetos de metal antes da sua intervenção cirúrgica. Nalguns casos poderá usar as suas joias ou bijutarias durante a operação. O enfermeiro poderá esclarecê-lo/a. Também lhe vão dizer para retirar o verniz das unhas e a maquilhagem.

Antes de qualquer intervenção cirúrgica, não vai poder comer nem beber nada durante algumas horas. É o denominado “jejum pré-operatório”.

Também pode precisar de tomar banho e retirar os pelos do corpo na área da operação. O enfermeiro que tratar de si vai dizer-lhe o que deve fazer. Os pelos do corpo só são retirados se for necessário. A depilação é realizada com uma lâmina de barbear descartável. Os pelos voltam a crescer depois da operação.

Ao ser submetido a uma intervenção cirúrgica, pode correr o risco de desenvolver um coágulo sanguíneo na perna, ou seja, uma TVP (trombose venosa profunda). As meias elásticas de compressão ou anti-embolia ajudam a reduzir esse risco. Pode ter de usar meias elásticas de compressão durante e depois da operação. O seu enfermeiro irá medir as suas pernas e ajudá-lo/a a calçá-las.

Depois da operação

O acordar depois da operação às vezes pode ser assustador, por isso é bom saber o que deve esperar. Isso também pode ser útil para a sua família e amigos caso queiram visitá-lo/a.

Quando acordar vai sentir-se sonolento/a. Mais tarde, pode não se lembrar do que se passou nas primeiras horas depois de ter acordado. Um enfermeiro vai medir-lhe a tensão arterial e pode sentir a manga do aparelho de medir a tensão arterial a apertar-lhe o braço.

Também poderá ter alguns tubos ligados ao seu corpo. Esses tubos podem ser:

  • de um sistema gota a gota ou infusão intravenosa para lhe fornecer líquidos até poder comer e beber normalmente (pode ser durante algumas horas ou alguns dias);

  • um tubo na sua ferida para ajudar a drenar os fluidos para um recipiente de recolha (o tubo costuma ser removido ao fim de alguns dias);

  • um pequeno tubo chamado catéter, que pode ser inserido na bexiga para drenar a urina para um saco de recolha (este será removido quando estiver em condições de se movimentar).

    Dor É normal sentir algumas dores depois da cirurgia. Irão dar-lhe analgésicos para aliviar a dor. Se sentir dores, informe o enfermeiro que está a tratar de si. Um bom controlo da dor vai ajudá-lo/a a conseguir movimentar-se o mais cedo possível.

    Enjoos (náuseas) e má-disposição (vómitos) Pode sentir-se enjoado/a, pelo que devem dar-lhe medicamentos para aliviar a sensação de enjoo. Se ainda sentir dores ou enjoos, informe o enfermeiro que está a tratar de si.

Movimentar-se Deverá conseguir levantar-se da cama pouco tempo depois da operação. O pessoal da enfermaria irá ajudá-lo/a. Ao movimentar-se, consegue recuperar mais depressa e reduz o risco de desenvolver outros problemas. Por vezes, depois de uma grande operação poderá ter de ficar na cama durante um período de tempo mais prolongado. Os exercícios respiratórios e os exercícios com as pernas podem ajudar a reduzir o risco de desenvolver problemas depois da cirurgia, tais como infeções torácicas e coágulos sanguíneos. O seu enfermeiro ou fisioterapeuta vão ensinar-lhe esses exercícios.

Tratar da ferida A ferida é fechada com agrafos ou pontos. Estes serão retirados no hospital ou quando for para casa. Um enfermeiro distrital pode ir a sua casa retirar-lhe os pontos, ou então serão retirados por um enfermeiro do seu centro médico. Também pode ter um penso a cobrir a ferida. Alguns cirurgiões utilizam pontos absorvíveis que não precisam de ser retirados. Estes vão desaparecer quando a área cicatrizar. Podem receitar-lhe antibióticos para ajudar a evitar que a ferida infecte.

Cicatrizes No início pode sentir comichão na sua cicatriz. Esta vai ter o aspecto de uma linha vermelha que pode ser um pouco irregular. A cicatriz vai tornar-se menos vermelha, até ficar com o aspecto de uma linha branca fina. É importante informar imediatamente o seu médico se a ferida ficar quente, se doer ou se começar a sangrar ou a verter qualquer fluido.

Nos primeiros dias a seguir à operação, pode precisar de ajuda para se lavar e para ir à casa de banho. Fale com o seu enfermeiro se preferir ser ajudado/a por um enfermeiro do seu sexo. Quando já se puder movimentar, talvez consiga fazer isso sozinho/a.

Cada pessoa recupera de uma operação de maneira diferente. Algumas pessoas sentem-se melhor rapidamente, enquanto que outras podem demorar muito mais tempo. Isso depende do tipo de operação a que são submetidas.

Problemas a longo prazo

Algumas pessoas têm problemas a longo prazo depois da cirurgia ao cancro, embora nem toda a gente os tenha. Os funcionários do hospital devem falar consigo sobre esses problemas, para ficar a saber o que pode esperar.

Alguns exemplos de efeitos a longo prazo são:

Dor no nervo Isto é mais comum depois de alguns tipos de operações como as que incluem a abertura da caixa torácica. Os analgésicos vão aliviar a dor.

Danos no nervo Se os seus nervos forem removidos ou danificados durante uma operação, isso pode causar efeitos secundários permanentes. Pode notar que sente a área à volta do local da operação diferente e que a forma como essa parte do seu corpo funciona se alterou. Um exemplo desta situação é quando a glândula prostática é removida. Pode ter menos controlo da bexiga ou pode ter de urinar com mais frequência.

Impotência ou incapacidade de ter uma ereção Por vezes isso pode acontecer depois de uma operação a um cancro na parte inferior do intestino ou na glândula prostática.

Linfedema Se as suas glândulas linfáticas foram removidas poderá ter um inchaço chamado linfedema. Isto é mais comum nos braços ou pernas perto do local onde as glândulas linfáticas foram removidas, ou se tiver feito radioterapia nessa área.
Os gânglios linfáticos fazem a drenagem dos fluidos. Removê-los pode fazer com que os fluidos se acumulem, causando um inchaço. Contacte o seu médico se notar algum inchaço nas mãos, braços ou pernas. É importante que seja tratado rapidamente.

Alterações a nível físico e emocional

Algumas operações alteram o aspecto do seu corpo. Isso pode afetar o modo como se sente acerca de si próprio/a, o que o/a poderá perturbar. Há muitos tipos de apoio disponível, por isso deve falar com o seu enfermeiro ou o seu médico caso se sinta perturbado/a. Estes devem poder ajudá-lo/a ou irão encaminhá-lo para um acompanhamento psicológico.

Os créditos desta informação foram compilados pela Macmillan Cancer Support e adaptados pela SOS Oncológico.